Pequena provocação a propósito da Saúde mental dos policiais militares no Brasil
Ontem a noite (10 de novembro) a globo News exibiu programa de meia hora sobre a saúde mental de policiais militares. Houve pequena contextualização citando o número de mortes de policiais no trabalho e também para os suicídios, que atualmente matam mais que o trabalho nas ruas. Mas o foco foi o dos impactos do trabalho de PM em sua saúde mental.
A reportagem ouviu policiais vítimas de violência (sequelados inclusive paraplégico) e estudiosos como a Daisy Miranda, autora do livro “POR QUE POLICIAIS SE MATAM?” e também policiais que estudam o tema.
Novamente (faz pouco tempo o tema foi abordado em reportagem do programa Fantástico) o foco me pareceu nas consequências da violência sofrida, embora tenham sido registrados aspectos que lembram a noção de causalidade circular. Ou seja, trabalho como causa de depressão e a depressão como fator contributivo de novas manifestações e acidentes.
A abordagem das situações vivenciadas por esses trabalhadores que estariam contribuindo para as origens e ou agravamento e ou ocultação de problemas apontou a formação centrada na ideia da necessidade de ser forte, ser homem, imune a traumatismos (as palavras são minhas, mas no vídeo foram usadas expressões similares). Também a ideia de que os policiais sejam formados para matar foi destacada. Em suma, uma cultura profissional que rejeita, que se associa a práticas até de perseguição daqueles que admitam ou ousem falar em sofrimento no trabalho.
Estranhamente esse tema da formação que emergiu de forma cristalina não foi explorado.
• Afinal, quais as suas origens?
• A formação de PM é a mesma em todos os locais?
• Sempre foi assim em todos os momentos da história?
• A formação de outros policiais segue o mesmo padrão?
• Há diferenças? quais?
• Como é a formação de policiais em outros locais do mundo em especial naqueles em o número de mortes de policiais em serviço e de pessoas mortas por policiais em serviço são diferentes dos nossos?
• [...]
Da mesma maneira ficaram sem exploração as vivências do trabalho que já são percebidas pelos policiais como potencialmente mais difíceis. E obviamente, sobre o como são colocados a confrontá-las. Quais os suportes que recebem e ou iniciativas existentes visando a mudar as condições em que se dá o trabalho potencialmente nocivo de modo a torná-lo menos agressivo.
Uma outra questão que emergiu e também foi pouco explorada foi a violência sofrida por PM fazendo bicos em trabalhos de segurança que lhes são proibidos, mas que são percebidos como fonte alternativa de melhora de vencimentos (os salários são considerados baixos). E que segundo entrevistados são prática comum e conhecida da cúpula policial. Aparentemente a cúpula policial adota as estratégias do avestruz em associação com a atribuição de culpa as vítimas A abordagem é individualizante para problema com raízes bem mais profundas!
Também foi discutida a falta de suporte adequado para os policiais vítimas de sofrimento mental. Os serviços de saúde atualmente existentes são em número insuficiente inclusive nos estados mais ricos do país.
O vídeo merece ser visto e chamou a atenção para problema que já assume dimensões mais que preocupantes. E que, embora reconhecidas continuam sendo exploradas e debatidas de modo que quando muito, parece cobrar medidas de suporte e atenção às vítimas atuais, o que sem dúvidas é importante, mas permanece deixando de olhar para as origens do problema e para cobranças de iniciativas efetivas pela sua prevenção.
Ildeberto Muniz de Almeida (Paraíba)
OBS
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Dificuldades na prevenção
Atualmente estudiosos da prevenção chamam a atenção para a importância de intervenções que não sejam exclusivamente centradas nas chamadas origens proximais dos problemas. No caso do trabalho policial que por natureza inclui o lidar com criminosos e ameaças que com frequência são concluídas com ações de combate e luta isso implica reconhecer que o desencadeamento ou "disparo" do descontrole da situação pode ter "avisos" que se adequadamente antecipados podem ajudar a evitar e ou minimizar consequências. Mas, sobretudo implica reconhecer que muitas das situações em questão tem origens em condições enraizadas na história das organizações. Muitas dessas origens representam problemas crônicos cujas origens podem e precisam ser enfrentadas. Algumas recomendações nesse sentido apotam para a necessidade de melhorar comunicações, implementar serviços adaptados às especificidades das situações enfrentadas (inteligência ajuda a reconhecer necessidades). Melhorar modos de funcionamento e a organização do trabalho, Reduzir indisponibilidade de serviços, panes de equipamentos, sobrecargas de trabdores. Implementar ações de parceria com coletividades locais. E outras práticas cujo reconhecimento exige explorar as dificuldades do trabalho atual.
Militarização acima dos direitos da lei leva a conflito básico
Comentário do Heleno Correa, a propósito da minha postagem. Ele o fez num grupo de zap e me autorizou a divulgar aqui.
[18:54, 11/11/2019] +55 61 8119-3766: A militarização acima dos direitos da lei leva a um conflito básico que dobra e fere qualquer psique. As ordens são para cumprir o que o comando determina, implacável, sem respeito à lei, sem respeito aos direitos das pessoas que devem ser massacradas. Por outro lado o mito fundador das polícias é que elas "defendem" a justiça e o direito, o que obviamente um policial fardado sob ordens militares não pode cumprir. As ações de um PM são determinadas por um conflito que ele não pode resolver por que as polícias enquadram, investigam, julgam, condenam e executam sem respeito ao aparato de estado. São militares contra um inimigo - o povo que paga os seus salários. Um conflito sem resolução em que matam e punem certamente os leva a não conseguir resolver a própria vida. Se matam, mais frequentemente que os médicos anestesistas. Uma das categorias de risco de trabalhar com acesso fácil a riscos potenciais, o que configura uma "Categoria Schilling tipo Quatro" que muita gente desconhece por que nunca leu. Naquela publicação de 1989 Schilling fala de várias exposições com acesso fácil ao perigo. Evidente que não fala de armas sem código de identificação e PMs. Mas fala do Tipo IV - Cobrança de dívidas (Inkeeping) e cirrose (acesso à bebida como consolo por oprimir devedores); laboratório e exposição a meios de concretizar suicídio com fácil acesso a produtos xenobióticos (página 685). Para PMs caso Schilling estivesse vivo hoje seria cumprir ordens contraditórias impossíveis de conciliar e acesso fácil a armamento não identificado. Muitos médicos do trabalho já disseram para mim em aula que "não existe um Schilling tipo IV" mesmo depois de mostrar para eles que essa classificação foi retificada pelo autor. "Não acabou, tem de acabar, com a Polícia Militar". É para preservar as vidas dos dois lados. Referência - SCHILLING, R. S. F. Health protection and promotion at work. British Journal of Industrial Medicine, v. 46, n. 10, p. 683-688, 1989. Disponível em: < http://oem.bmj.com/content/oemed/46/10/683.full.pdf >. Acesso em 11/11/2019
[18:56, 11/11/2019] +55 61 8119-3766: Eu achava, até 2012, que essa classificação de Schilling era absolutamente artificial enquanto conhecia os três tipos clássicos. Me recusava a entender e adotar uma classificação que parecia "cartorial" da medicina do trabalho, até ler o trabalho dele feito bem depois da primeira divisão que continuo achando cartorial. Aí passei a valorizar o trabalho dele e me dei conta que mesmo sendo cartorial ele estava à frente de muita gente. Agora dou o braço a torcer.