Saiu número da Revista Saúde em Debate que merece ser lido com calma pelos interessados nos campos da saúde do trabalhador e Ambiental.
Seguem abaixo Editorial (de Heleno Rodrigues Correa Filho e Maria Cristina Rodrigues Guilam) e Sumário
Editorial
A CONSTITUIÇÃO DO CAMPO DA SAÚDE DO TRABALHADOR (ST) significa um enorme avanço
no que se refere aos estudos voltados para a relação saúde/doença/trabalho. Para além das
abordagens biologizantes e tecnicistas da medicina ocupacional e da engenharia de segurança,
a incorporação das ciências sociais nas pesquisas comprometidas com o trabalhador determina
uma mudança radical no olhar do pesquisador ao dar visibilidade aos sujeitos da pesquisa,
por meio da contribuição e integração de disciplinas como a ergologia, a psicologia, a história,
entre outras.
A formação discursiva da ST reivindicou seu núcleo identitário no papel político e organizativo
essencial e insubstituível das representações democráticas diretas de sindicalistas nas
comissões gestoras de saúde integradas por trabalhadores e pela eleição de membros de conselhos
de saúde identificados com a saúde nos ambientes de trabalho.
As representações de trabalhadores passaram a ser constituintes e criadoras de políticas
para os trabalhadores na condição de usuários dos sistemas de saúde. Assim, a construção
do Sistema Único de Saúde (SUS) abriu espaços políticos e administrativos para técnicos e
profissionais de saúde interagirem com trabalhadores investidos de mandatos sindicais, conselheiros
e intelectuais eleitos para formular diretrizes e políticas de saúde, previdência e seguridade
social para os trabalhadores.
No período de 1988 a 2017, os conflitos políticos e sindicais encontraram expressão no fluxo
e refluxo da participação de representações de trabalhadores nas políticas locais, regionais e
nacionais em ST. O SUS recebeu a contribuição militante e, em contrapartida, as pressões para
não ceder aos grupos organizados de trabalhadores fosse no campo político, administrativo ou
financeiro.
As pressões organizativas para desenvolver a ST foram antagonizadas por pressões empresariais,
corporativas profissionais e de políticos ligados aos setores contrários à participação
democrática direta nas políticas de Estado.
Nas últimas décadas, diversos autores do campo fizeram o que Raquel Maria Riggotto
chamou de movimento (de ponte e potenciação) em direção à questão ambiental. Entendemos
que tal movimento emerge da compreensão de que as ameaças à saúde não obedecem aos
limites das fábricas, das indústrias, dos campos submetidos aos agrotóxicos.
A associação da ST à categoria ‘ambiente’ evidencia uma superposição de riscos à saúde em
populações mais vulneráveis: os mesmos sujeitos trabalham em situações de risco, têm menos
proteção em seu ambiente de trabalho e moram em locais pouco privilegiados.
Como formação discursiva emergente no cenário técnico-científico brasileiro, é importante
destacar que a visão da ST não excluiu do cenário as visões conservadoras da medicina ocupacional
e da saúde ocupacional. Tais visões competem por hegemonia, e o papel das instituições
acadêmicas pode ser fundamental na disseminação de um corpo de conhecimentos que desconstrua
a visão tradicional de culpabilização do indivíduo trabalhador por seu adoecimento.
Para termos uma ideia, de acordo com a Associação Nacional de Medicina do Trabalho
(Anamt), em 2014, havia 12.756 médicos do trabalho atuantes no Brasil, fato que coloca a medicina do trabalho como a sexta especialidade médica à frente de especialidades tradicionais como a cardiologia e a ortopedia.
Por outro lado, entre os 90 programas de saúde coletiva credenciados pela Coordenação
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), apenas 11 oferecem uma área de
concentração de saúde, trabalho e ambiente, e somente 4 são efetivamente programas de ST
ou saúde, trabalho e ambiente. Esses dados deixam claro que ainda há um longo caminho a
ser percorrido até que um número expressivo de pesquisadores da área de saúde incorpore as
categorias ‘trabalho’ e ‘ambiente’ como necessárias à compreensão dos fenômenos ligados à
saúde e ao adoecimento, tanto no âmbito do indivíduo como no âmbito das populações.
Por fim, é preciso mencionar o investimento feito pelo grande capital para esvaziar as controvérsias
públicas no campo ambiental, por meio da intimidação e criminalização de atores
sociais ou mesmo do fomento de falsos dilemas entre trabalhadores e ambientalistas. Grandes
empresas que degradam, poluem, adoecem e acidentam apostam no temor dos trabalhadores
de perderem seus empregos caso se alinhem às lutas ambientais.
Propomos, portanto, uma nova palavra de ordem: trabalhadores, ambientalistas, pesquisadores,
uni-vos! Pelo direito à saúde! Pelo direito ao trabalho! Por um mundo sustentável!
Heleno Rodrigues Corrêa Filho
Diretor do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes)
Maria Cristina Rodrigues Guilam
Coordenadora-Geral de Pós-Graduação da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)
Sumário:
EDITORIAL | EDITORIAL
9 APRESENTAÇÃO | PRESENTATION
ARTIGO ORIGINAL | ORIGINAL ARTICLE
13 Violência doméstica e trabalho: percepções de mulheres assistidas em um Centro de Atendimento à Mulher. Jasmin Gladys Melcher Echeverria, Maria Helena Barros de Oliveira, Regina Maria de Carvalho Erthal
25 Infância, trabalho e saúde: reflexões sobre o discurso oficial de proibição do trabalho infantil
Valdinei Santos de Aguiar Junior, Luiz Carlos Fadel de Vasconcellos
39 Possíveis contribuições da integração das políticas públicas brasileiras à redução de desastres
Rafaela Facchetti Assumpção, Elida Séguin, Débora Cynamon Kligerman, Simone Cynamon Cohen
50 Convenção de Minamata: análise dos impactos socioambientais de uma solução em longo prazo
Rafaela Rodrigues da Silva, Jeffer Castelo Branco, Silvia Maria Tagé Thomaz, Augusto Cesar
63 Produção de vulnerabilidades em saúde: o trabalho das mulheres em empresas agrícolas da Chapada do Apodi, Ceará
Mayara Melo Rocha, Raquel Maria Rigotto
80 O processo de institucionalização das práticas de saúde em uma unidade de produção da Fiocruz
Maria Cristina Jorge de Carvalho, Maria Helena Barros de Oliveira, Renato José Bonfatti
92 Trajetórias educacionais e ocupacionais de trabalhadores do Sistema Único de Saúde, e suas expectativas profissionais
Monica Vieira, Filippina Chinelli, Luciana Souza d’Ávila, Denise Rodrigues Fortes, Nancí Aparecida da Silva David
104 Reorganização do trabalho em uma agência da Previdência Social: resistência à mudança ou preservação
da saúde?
Cirlene de Souza Christo, Maria Elisa Siqueira Borges
115 Processos protetores e destrutivos da saúde dos(as) trabalhadores(as) da sericicultura Nanci Ferreira Pinto, Neide Tiemi Murofuse
130 A dinâmica do reconhecimento: estratégias dos Bombeiros Militares do Estado Rio de Janeiro
Kátia Maria Oliveira de Souza, Creuza da Silva Azevedo, Simone Santos Oliveira
140. A satisfação no trabalho da equipe multiprofissional que atua na Atenção Primária à Saúde
Letícia de Paula Tambasco, Henrique Salmazo da Silva, Karina Moraes Kiso Pinheiro, Beatriz
Aparecida Ozello Gutierrez
152 Avaliação do trabalho na Atenção Primária à Saúde do município do Rio de Janeiro: uma abordagem em saúde do trabalhador
Mariana Monteiro de Castro, Simone Santos Oliveira
165 Desafios da comunicação em Unidade de Terapia Intensiva Neonatal para profissionais e usuários
Carla Andréa Costa Alves de Campos, Luciano Bairros da Silva, Jefferson de Souza Bernardes, Andressa Laiany Cavalcante Soares, Sonia Maria Soares Ferreira
175 Avaliação dos riscos ambientais na sala de abate de um matadouro de bovinos
Gabriela Chaves Marra, Simone Cynamon Cohen, Francisco de Paula Bueno de Azevedo Neto, Telma Abdalla de Oliveira Cardoso
188 Fatores de riscos ocupacionais e implicações à saúde do trabalhador em biotérios
Gabriele Fatima de Souza, Aldo Pacheco Ferreira, Maria de Fátima Ramos Moreira, Luciana Fernandes Portela
200 Avaliação do burnout em trabalhadores de um hospital universitário do município de Belém (PA)
Fábio Gian Braga Pantoja, Marcos Valério Santos da Silva, Marcieni Ataide de Andrade, Alex de Assis Santos dos Santos
215 As repercussões da Doença de Chagas no contexto de vida e trabalho de usuários de instituto de pesquisa
Amanda Almentero Marques, Élida Azevedo Hennington
225 Estudo espacial de riscos à leptospirose no município do Rio de Janeiro (RJ)
Juliana Valentim Chaiblich, Maria Luciene da Silva Lima, Raiane Fontes de Oliveira, Maurício
Monken, Maria Lucia Fernandes Penna
241 Associação entre malformações congênitas e a utilização de agrotóxicos em monoculturas no Paraná, Brasil
Lidiane Silva Dutra, Aldo Pacheco Ferreira
ENSAIO | ESSAY
254 A categoria saúde na perspectiva da saúde do trabalhador: ensaio sobre interações, resistências e práxis
Katia Reis de Souza, Andréa Maria dos Santos Rodrigues, Verônica Silva Fernandez, Renato José Bonfatti
264 El territorio como categoría fundamental para el campo de la salud pública
Elis Borde, Mauricio Torres-Tovar
276 Interfaces entre a saúde coletiva e a ecologia política: vulnerabilização, território e metabolismo social
Isabelle Maria Mendes de Araújo, Ângelo Giuseppe Roncalli da Costa Oliveira
287 Análise das políticas de saúde do trabalhador e saúde mental: uma proposta de articulação
Karine Vanessa Perez, Carla Garcia Bottega, Álvaro Roberto Crespo Merlo
REVISÃO | REVIEW
299 Saúde, trabalho e imigração: revisão da literatura científica latino-americana
Leonardo Dresch Eberhardt, Ary Carvalho de Miranda
313 Exposição ocupacional a substâncias químicas, fatores socioeconômicos e Saúde do Trabalhador: uma visão integrada
Leandro Vargas Barreto de Carvalho, Isabele Campos Costa-Amaral, Rita de Cássia Oliveira da Costa Mattos, Ariane Leites Larentis
RELATO DE EXPERIÊNCIA | CASE STUDY
327 Abrigos temporários em desastres: a experiência de São José do Rio Preto, Brasil
Fernando Guilherme da Costa, Regina Fernandes Flauzino, Marli Brito Moreira de Albuquerque Navarro, Telma Abdalla de Oliveira Cardoso
338 Oficina Mapa Vivo na atenção básica: estratégia de planejamento local ao combate ao Aedes aegypti
Marcos Aguiar Ribeiro, Izabelle Mont’Alverne Napoleão Albuquerque, Jamylle Lucas Diniz, Ana Karoline Barros Bezerra, Ismael Brioso Bastos
347 Revitalização da Bacia do Ribeirão do Izidora: educação ambiental como estratégia
Daniela Santos Serpa Siqueira, Daniela de Almeida Ochoa Cruz, Marcos Vinícius Polignano, Lenice de Castro Mendes Villela, Vanessa de Almeida
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