Essa semana ouvi episódio do Podcast Rádio Novelo que destacou o o desabamento do pavilhão de exposição Gameleira, em BH, MG (aconteceu em 04 de fevereiro de1971).
A reportagem destacou a figura do Antonio Libério de Borba, que anos depois, defendeu tese na Unicamp sobre o caso. Uma bela história. Vou destacar abaixo links para o podcast e também de notícia publicada no Jornal da Unicamp, de setembro de 2007, sobre a defesa da tese.
Antes seguem aqui
título da tese defendida em 2007.
LEMBRAR PARA TER O DIREITO DE ESQUECER: A RECONSTRUÇÃO HISTÓRICO-SOCIOLÓGICA DA TRAGÉDIA DA GAMELEIRA EM BELO HORIZONTE E SEUS REFLEXOS NA TRAJETÓRIA DE VIDA DOS ATORES SOCIAIS NELA ENVOLVIDOS.
Interessado? favor buscar acesso com o nome do autor ou da tese.
Podcast rádio novelo
1. https://podcasts.apple.com/br/podcast/em-meio-%C3%A0s-ru%C3%ADnas/id1653631116?i=1000739614064
O que ninguém te contou sobre a Penha e a Gameleira.
No primeiro ato: uma casa que cai, e uma ficha que ainda não caiu. Por Thainã de Medeiros.
No segundo ato: os escombros de um projeto modernista. Por Carolina Moraes.
A transcrição do episódio está disponível no site da Rádio Novelo: https://bit.ly/transcriçãoep158
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Palavras-chave: chacina da Penha; massacre; Vila Cruzeiro; Alemão; Complexo do Alemão; Instituto Papo Reto; Coletivo Papo Reto; Raull Santiago; Gameleira; Belo Horizonte; artes plásticas; Oscar Niemeyer
2. | Portal Unicamp | Assine o JU | Edição 372 - 17 a 23 de setembro de 2007
Tese de doutorado reconstitui maior acidente da construção civil brasileira por meio de depoimentos de testemunhas e de parentes de vítimas da tragédia que matou 69 operários em Belo Horizonte no início da década de 70
Libério revolve escombros e resgata ‘vidas ordinária s’ da Gameleira
Antonio Libério de Borba virou doutor. O título é um arabesco a ornamentar o papel passado de seus feitos (e ofícios). Libério foi lavrador, garimpeiro, feirante, contínuo, pedreiro, mestre de obras, calculista, dono de confecção e construtor. Chegou à docência.
O diploma pode ser encaixilhado e colocado na parede de seu apartamento no bairro de Santa Inês, em Belo Horizonte. Nem sempre foi assim. Libério pernoitou no pau-a-pique, dormiu sob palmeira de babaçu, despertou em quartos de fundos.
Professor Borba se coloca na categoria dos homens comuns, mas sempre teve lá suas idiossincrasias. A última delas acaba de lhe render o título, concedido por sua tese sobre a reconstituição da “tragédia da Gameleira”, ocorrida na capital mineira em 1971.
O desabamento do Pavilhão de Exposições da Gameleira é tido como o maior acidente da história da construção civil brasileira. Deixou 69 mortos e mais de uma centena de mutilados.
Apresentada no último dia 24 na Faculdade de Educação (FE), a pesquisa escorou-se em várias frentes, todas relacionadas de um jeito ou de outro às veredas que confluíram nos campos pessoal e profissional de seu autor.
A banca recomendou a publicação da tese, que foi orientada pela professora Olga von Simson, diretora do Centro de Memória da Unicamp (CMU), com quem Libério divide os méritos. “A professora Olga teve um papel fundamental na minha formação e na valorização da tragédia como objeto de pesquisa”.
Libério cimentou sua obra recorrendo à metodologia da história oral e à farta pesquisa documental, cuja prospecção lhe consumiu meses de transcrição “à unha seca” em hemerotecas e congêneres. Foram seis anos de estudos ao todo.
O professor universitário graduou-se em um curso de engenharia civil voltado para o magistério. Passou também pelas áreas da educação, matemática, geografia e lingüística. Fez mestrado em Cuba – a dissertação dimensionava o impacto da tecnologia no mercado de trabalho brasileiro.
Esse cabedal é peixe miúdo perto do peso das origens do professor no conjunto de seu trabalho. A constatação de que todos os mortos no acidente pertenciam à classe de “gente ordinária”, tipificação à qual Libério se inclui, é feita sem o mínimo vestígio de autocomiseração.
Borba já havia se equilibrado em muitos andaimes. Tinha percorrido outros canteiros. Antes de enxergar as vítimas da Gameleira como antípodas, o pesquisador tratou-as como assemelhadas. Não podia ser diferente.
“Meu foco era a reconstrução histórico-sociológica da tragédia. Por que eu fiz essa pesquisa? Porque se, sob os escombros, estivessem profissionais diplomados, a história teria sido outra. Não havia entre as vítimas um único funcionário graduado. Como morreram quase cem operários, concluí que este era o mote. A Gameleira caiu literalmente sobre aqueles que colocaram a mão na massa”, observa Libério.
À história. O “milagre econômico” em curso na época do acidente expelia milhões de brasileiros do campo para as regiões metropolitanas. A ditadura militar, mola azeitada do modelo, abria os cofres para obras classificadas pelo senso comum de “faraônicas”. A Gameleira era mais uma na lista.
A erguê-la, uma massa de gente saída das entranhas do país. A mesma que minguou no anonimato depois do acidente. Não fosse o esforço da imprensa, sob censura cerrada dos militares, o silêncio seria ainda maior. Borba torna pública, de forma inédita e impressionante, a história nunca contada.
O então servente de pedreiro Libério pregava tacos numa obra em Belo Horizonte no momento da tragédia. Tinha como companhia um rádio de pilha, por meio do qual soube do desmoronamento da obra.
Havia a suspeita de que entre os mortos estava um primo seu. O alarme era falso. Mas às 11h45 do dia 4 de fevereiro de 1971, entre aqueles que trabalhavam, jogavam truco, batiam uma bola (dois times estavam sob a laje), abriam a sua marmita (muitos corpos foram identificados pelo objeto) ou faziam a sesta, havia centenas de iguais. Quase todo o contingente de 512 operários que ali estavam era oriundo do Norte de Minas Gerais. Um prato cheio para a impunidade.
Se o norte mineiro difere nas denominações impostas pela nomenclatura da burocracia, é detentor de uma unidade cultural cujo patrimônio é incalculável – assim como a beleza natural –, ultrapassando as barreiras geográficas. Outro componente comum: PIBs liliputianos. Um vasto território que engloba o “norte” propriamente dito, mais o Vale do Jequitinhonha, o Noroeste e outras franjas do Estado.
‘Aprender-a-viver é que é o viver’
Libério gosta de dizer que nasceu no coração do “grande sertão”. Sua certidão é de São Gonçalo do Abaeté, noroeste de Minas.
Não é por acaso que a epígrafe de sua tese estampa Guimarães Rosa: “O senhor escute meu coração, pegue no meu pulso. O senhor avista meus cabelos brancos... Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo. O sertão me produz, depois me engoliu, depois me cuspiu do quente da boca... O senhor crê minha narração?”.
O fraseado de Borba é musical, repleto de timbres sertanejos. Libério guarda um léxico de dialetos. Passaria fácil por personagem roseano.
O pesquisador foi introduzido cedo no batente. “Pobre começa a trabalhar na hora em que aprende a andar”. Entretanto, cumpre registrar, sua infância foi feliz, apesar de uma ou outra privação. “Foi um tempo de trabalho duro, mas também de fartura e muita festa”.
O pai, o lavrador Sebastião Borba da Silva, plantava de tudo – de inhame a algodão. Com este, a família confeccionava inclusive a roupa que vestia. “Fazíamos a linha, tingíamos, tecíamos e costurávamos nossa própria roupa de cama e vestuário”.
Os Borba produziam fubá, farinha, açúcar e fumo. Criavam galinha, porco, “umas vaquinhas pra dar leite” e alguns cavalos. “Comprávamos apenas sal e querosene”.
Na entressafra, de junho até setembro, garimpava-se diamante. “E encontrávamos”, diz Libério, que trabalhava na roça com o pai ou em casa ajudando a mãe, Joana Vilela da Silva.
Nos limites domésticos, Libério buscava água no córrego, limpava arroz no monjolo, fazia fubá, limpava milho para canjica, aprontava o café. No campo, roçava, capinava, plantava e colhia. “Eu era o candeeiro na lida com o carro de bois e o arado”.
As tarefas eram executadas na parte da manhã. À tarde, ele estudava numa escola rural, a uns dois quilômetros de casa – depois, quando se mudou para a cidade, andava 20 quilômetros para estudar. Na escola multisseriada, de chão batido e bancos de tábua, aprendeu a gostar de poesia, lendo Cecília Meireles.
Não havia energia elétrica. “Rádio e televisão não fizeram parte da minha infância”. Não carecia. Além das brincadeiras e das incursões no cerrado, nos campos de pedra e nas matas das barrancas do Abaeté, um afluente do São Francisco, Libério e seus três irmãos cresceram entre causos e folguedos.
Exímio tocador de violão, acordeão, piano e rabeca, seu pai animava as festas na região – da folia de reis às festas de traição, como são conhecidos os mutirões na lavoura. Havia ainda terços, novenas, romarias e grandes festas juninas nas casas dos tios.
Os causos eram recorrentes. Os narradores, pessoas mais velhas que desfrutavam de grande prestígio na comunidade, eram muitos na região. As histórias com um pé no fantástico eram contadas à noite em volta do fogão de lenha, após a ceia, ou na roda da fogueira no terreiro. É comum na região o pasquim, espécie de cordel cantado em prosa e verso.
A família de Libério deixou esse mundo para trás quando ele tinha 16 anos de idade. O pai saiu de São Gonçalo para montar uma lapidação de diamantes em Gouvêa, no Vale do Jequitinhonha. Entrou água no empreendimento. Corria 1970 e o passaporte para Belo Horizonte estava carimbado. Nada mais havia a fazer no campo.
‘Você não cobre, você rebuça’
A capital mineira era um símbolo nacional da modernidade urbana. “O novo logo ficava velho”, lembra Libério, para quem as obras na Gameleira reforçavam essa imagem.
O moderno, porém, cobrava pedágio: magotes de migrantes passaram a habitar o entorno das grandes avenidas arborizadas e as encostas dos morros. Em comum, o subemprego e a privação. Libério, então com 16 anos, integrava essa legião.
Borba fez de tudo para ajudar no orçamento doméstico. As ocupações: caixa de restaurante, feirante, servente de pedreiro, vendedor, contínuo e auxiliar de escritório.
“Não arrumava trabalho com bons salários porque, no sertão, você não suspende, você sunga; você não cobre, você rebuça. Quando eu ia fazer entrevista, não dava certo”.
A obstinação nos estudos fez a diferença. Logo que chegou em BH, por exemplo, Borba foi aprovado no exame ginasial para o acesso em uma das quatro escolas públicas da cidade.
Seu sonho de ser violoncelista esbarrou em um conselho paterno: o melhor a fazer era esquecer as partituras e cursar uma escola técnica. A disputa na Escola Técnica Federal de Minas Gerais (hoje, Cefet-MG) era concorridíssima: 50 candidatos por vaga. Passou.
Borba pegou carona no espírito predominante. Já que teria de cursar a escola a contragosto, raciocinou, optaria pelo curso técnico de oficial de estradas. Toda a grandeza da Transamazônica o aguardava. “Pensei: subo por essa estrada e esqueço o violoncelo”.
As estradas de Libério passaram ao largo de florestas densas. Foram cortadas pela cidade. No segundo ano de curso, à procura de estágio, Borba “deu a sorte” de ingressar num laboratório de tecnologia de concreto cujo proprietário era Mário Fox Drummond, um dos maiores especialistas da área no país.
Salário digno no bolso, Libério aprendeu os segredos do ofício ao participar da construção de grandes obras, entre as quais, a da Fiat Automóveis.
A morte do pai faria Borba perder o emprego e assumir, aos 20 anos de idade, novas responsabilidades. Para segurar a onda da família, muito abalada, ausentou-se três dias do trabalho. Foi o bastante para que um sócio da empresa o demitisse, mesmo contrariando Fox.
Foi admitido numa construtora na qual seu pai havia sido armador. Era uma espécie de faz-tudo, trabalhando na construção de 14 edifícios. Teve ali uma experiência que o levaria para outros caminhos. Libério era incumbido, entre outras tarefas, de liberar o pagamento dos funcionários em finais de semana. Ao efetuar uma paga, constatou que dois novos serventes não conseguiram assinar seus nomes, virando motivo de troça dos colegas.
“Fiquei constrangido. Foi triste ver aqueles homens tão dignos e esforçados passarem por aquela situação”. Depois de implantar um curso de alfabetização no barracão de obras da construtora, Libério entusiasmou-se com o ofício de professor. Buscava em obras de Carlos Rodrigues Brandão, Paulo Freire e Moacir Gadotti ferramentas teóricas que o auxiliassem na empreita.
Enviou seu currículo para três escolas que possuíam curso técnico, em nível de 2° grau, na área de construção civil. Duas o selecionaram. Demitiu-se da construtora e foi dar aulas na Universidade para o Trabalho de Minas Gerais (Ultramig), e no Instituto Técnico Orvile Carneiro (Itoc).
Prestou vestibular para pedagogia na Universidade Católica de Minas Gerais – (UCMG), e foi aprovado. Começou a trabalhar na Escola Técnica do Barreiro e na Escola Técnica Federal de Minas Gerais. Pouco depois, começou a fazer um curso de licenciatura plena em construção civil no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet), onde atua como docente há 29 anos em disciplinas ligadas à tecnologia da construção civil e canteiros de obras.
Militante sindical, Libério chegou a ter uma construtora e uma confecção. Mora hoje numa cobertura no bairro de Santa Inês, de “onde avisto Belo Horizonte inteira”, depois de alojar-se em muitos lugares, entre os quais um prédio cujo “quintal” eram os escombros da Gameleira. Ao abrir a janela de seu quarto via aquele esqueleto, um fantasma a rondar-lhe. “Isso ficou na minha cabeça”.
Foi um distorço na minha vida’
Outras lembranças também ficaram impregnadas. Borba fez mais que constatar a insensibilidade e a culpa do Estado ao entrevistar 27 personagens direta ou indiretamente envolvidos com a tragédia – entre órfãos, viúvas, sobreviventes, bombeiros, jornalistas, advogados e moradores do entorno do local da tragédia.
O pesquisador sentiu o quanto a tragédia marcou a vida de seus entrevistados. “Descobri, sobretudo, que os parentes não esmoreceram, mesmo que a Gameleira tenha caído sobre eles. As viúvas, por exemplo, fizeram de tudo para conter a desagregação familiar. Seguraram por décadas essa dor, que atravessou muitas vezes o seio da casa. O mais interessante é que muitos confiaram a mim essa memória subterrânea”.
Deparou com situações que o levaram a uma identificação imediata. Entrou num mundo em que pouca coisa diferia daquele de sua infância. “Seu Libério, Gameleira foi um distorço na minha vida”, disse a dona de casa Maria Leal da Silva, viúva de João Alves, operário cujo corpo foi o último a ser encontrado, 31 dias depois do acidente.
“Quer coisa mais Guimarães Rosa que a palavra distorço? Ela me disse isso com um choro contido, miudinho. Teve a dignidade de não passar as mãos nos olhos. Era aquela aguinha correndo...”, relatou Libério.
Outra fala de Maria levou Libério ao terreiro de sua casa no sertão, onde a mãe fazia de tudo. Disse a viúva que o corpo do marido – e outros corpos resgatados – parecia uma borra de sabão.
A imagem já diz tudo, mas Libério foi buscar em São Gonçalo do Abaeté as projeções inevitáveis. “Para fazermos o sabão, coávamos aqueles detritos. A borra era o que ficava retido na peneira”.
Se para Libério foi difícil chegar aos parentes das vítimas da tragédia, foi mais penoso ainda sair do convívio depois do primeiro contato. Os vínculos afetivos permaneceram. “Ô Libério, se até as pedras se encontram, quem dirá as criaturas?”, disse Maria ao autor da tese durante um almoço.
Os relatos vão se sucedendo. Ao chegar com fotos para mostrar à dona de casa Elza Soares de Souza, viúva do operário Manoel Firmo de Souza, ouviu: “Não preciso de nada para lembrar da Gameleira. O senhor sabe o que é chegar a sentir o cheiro dessa pessoa [o marido], trinta e tantos anos depois?”.
Outro entrevistado, Adilson Soares de Souza, filho de Elza e morador de um barracão nos fundos da casa da mãe, chorou muito em seu depoimento. Depois, mais calmo, apresentou Libério à família e foi mostrando a ele as tralhas da casa.
Depois de falar das plantas do jardim, pegou uma lata de tinta, arrancou uma muda, juntou terra e esterco com as mãos e plantou-a. Uma lembrança para Libério.
“Foi um presente maravilhoso. No dia que vim para cá [na defesa de tese], ela estava superflorida. Faço questão de exibi-la com lata e tudo. Há embutida nessa história essa coisa nossa do sertão, de não jogar nada fora. A lata que ia poluir virou um vaso”.
Por meio dos depoimentos, Libério constatou o já sabido à época do acidente. “Os operários falavam que o ‘trem’ ia cair. Viam as trincas, as rachaduras, avisaram seus superiores que o material não prestava, mas nada foi feito. Alertaram também que os procedimentos para a retirada das escoras da laje eram equivocados. O alerta deles e o latido de um cachorro eram a mesma coisa”.
Os chamados “atores sociais” ouvidos por Libério deram a noção da tunga do Estado que, por meio de sucessivas manobras jurídicas, passados mais de 36 anos da tragédia, mantêm sem indenização e ao deus-dará a grande maioria dos parentes das vítimas.
O processo foi desmembrado em duas partes, diz o pesquisador. Na primeira delas, alguns receberam. Na segunda fração, o Gameleira 2, ninguém recebeu nada. “Nesses anos, o Estado acenou às famílias dizendo que o valor ia ser pago administrativamente, ou seja, enrolou todo mundo”. Os dois processos somam 30 mil páginas.
O tapete vermelho e o sangue do pai
Ao disparar o gravador para colher depoimentos, o autor da pesquisa teve acesso aos detalhes dos trabalhos de resgate. A tragédia mobilizou Belo Horizonte. A solidariedade driblava a falta de informações e o silêncio imposto pelo Estado, que decidiu interromper as buscas por corpos no 28º dia subseqüente ao acidente.
Indignados, familiares exigiram a retomada dos trabalhos. Foram ao então ministro da Justiça, Alfredo Buzaid. Recuo feito, mais dois corpos foram encontrados sob os escombros. Outro tanto, suspeita-se, não foi reclamado.
“Muitos mutilados desapareceram da cidade. A maioria dos sobreviventes enlouqueceu. Entrevistei um órfão, por exemplo, que não consegue ouvir o som de helicóptero e só dorme à base de calmantes”, relata o pesquisador.
Os militares jogaram duro. Na opinião de Libério, a obra era mais uma das vitrines da ditadura. Uma vez desmoronado o sonho da construção do Pavilhão de Exposições da Gameleira, “o maior da América Latina”, a ordem da caserna era jogar tudo para baixo do tapete.
Uma missa de sétimo dia, que seria celebrada pelo então bispo auxiliar de Belo Horizonte, dom Serafim Fernandes de Araújo, foi proibida. Por iniciativa de Libério, a cerimônia foi realizada no início deste ano, 36 anos depois. Dom Serafim, hoje cardeal e arcebispo emérito de Belo Horizonte, enviou uma carta cobrando indenização para os parentes das vítimas.
A tese mostra também o papel desempenhado pela imprensa, que, a despeito de todas as restrições, apontava as contradições da versão oficial. O jogo de empurra começou logo após o acidente.
A obra, tocada pela construtora Sergen Engenharia, era de responsabilidade do Estado de Minas Gerais, à época governado por Israel Pinheiro, que esteve no local um dia antes do acidente. As fundações ficaram a cargo da Sobrafe. O pavilhão ia ser inaugurado no dia 31 de março, nas comemorações do sétimo aniversário do golpe militar.
Pinheiro tinha pressa, segundo o testemunho de sobreviventes e de jornalistas: queria entregar o pavilhão antes de encerrado o seu mandato, a 15 de março. Os operários trabalhavam num ritmo frenético.
O projeto era de Oscar Niemayer; o cálculo estrutural, de Joaquim Cardozo.
“Estamos falando de dois príncipes universais da arquitetura e da engenharia. O prédio era uma beleza, flutuava no ar. Eram 280 metros lineares sustentados apenas por cinco pilares em forma de pirâmides. Na retirada do escoramento da última laje, a estrutura desabou sobre os trabalhadores”.
A onda de especulações e boatos (plantados ou não) e a divulgação de laudos (fajutos ou não) que se seguiram ao acidente deixaram marcas não só nas vítimas. Joaquim Cardozo, por exemplo, que chegou a ser injustamente acusado de ser o responsável pela tragédia, entrou em depressão e nunca mais se recuperou.
Muita água rolou até que fosse divulgado, passados dez anos do desmoronamento, o laudo definitivo sobre as causas da tragédia. O documento, de 40 páginas, concluiu que o concreto usado pela construtora era 48% menos resistente do que deveria ser, além de a empresa ter adotado técnicas inadequadas para retirar o escoramento da laje.
Fala o docente, ex-pedreiro, ex-mestre de obras, ex-gerente de produção. “Incluo o Estado também na lista de culpados por não ter fiscalizado a obra, embora um órgão tenha sido criado apenas para este fim”, diagnostica Borba.
Libério, que integra um movimento pela construção de um memorial, não perdoa o fato de hoje o local hoje abrigar o estacionamento da Expominas, segundo ele, um “arremedo” do que seria o pavilhão. “O lugar da memória virou um não-lugar, no qual você transita sem saber por onde está passando”.
No ano passado, no exato momento em que ocorria no local uma convenção, com passarela estendida na entrada do saguão, Libério entrevistava um homem que tinha três anos quando o pai morreu soterrado.
O relato do órfão, que se lembrava apenas de um dia ter sentado no colo do pai, impressionou o pesquisador por sua carga dramática. O homem disse a Borba que o tapete vermelho estendido no saguão da Expominas representava o sangue de seu pai.
Libério conhece o peso simbólico da marmita para o operário. E do chapéu para o sertanejo.
O Airton, auditor fiscal do Trabalho de Minas Gerais divulgou apresentação que fez sobre o caso. Vejam aqui
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