O último manicômio e a luta da Reforma Psiquiátrica
Deu no Outra Saúde
O último manicômio e a luta da Reforma Psiquiátrica
A Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, fechou enfim as portas no final de outubro. Em entrevista, Paulo Amarante, um dos protagonistas da luta antimanicomial, reflete sobre o significado do acontecimento e as perspectivas para que se encerre a lógica de encarceramento
No dia 27 de outubro, um fato histórico marcou a luta pelo direito à saúde no Brasil. Foi definitivamente encerrada a Colônia Juliano Moreira, hospício e manicômio que começou a ser construído em 1919, onde milhares de brasileiros e brasileiras foram atirados para dali nunca mais saírem em condições dignas. Se a jornalista Daniela Arbex estava correta em definir a história manicomial brasileira como um Holocausto, a Colônia localizada em Jacarepaguá teria sido algo como o campo de concentração de Auschwitz ou Dachau. Sob este marco, o Outra Saúde colheu um depoimento histórico de Paulo Amarante, um dos protagonistas da luta antimanicomial do país.
“O fechamento da Colônia Juliano Moreira é um evento importantíssimo, de um processo que começou no final dos anos 1970, início dos 80, um processo crítico que colocava tais locais como centros de exclusão, violência”, resumiu.
Amarante, psiquiatra e um dos idealizadores do SUS, expressou verdadeira alegria em comentar o encerramento de atividades da Colônia, durante o depoimento de cerca de uma hora que gravou ao Outra Saúde. Trata-se de uma história amarga do nosso país. Diante do contexto político e eleitoral tão acirrado, não teve repercussão à altura.
De toda forma, o local não representa somente uma história de política de saúde mental equivocada. Apesar de não parecer, também é reflexo dos embates filosóficos e ideológicos que perpassam toda sociedade e sua relação com aqueles tidos como “inaptos” para desempenhar os papéis sociais e econômicos previamente definidos pela sociedade de mercado – e também aqueles que ofereciam perigo a ela.
“Quando a colônia foi inaugurada, o então diretor responsável pela fundação, o Rodrigues Caldas, um alienista – termo da época, inclusive usado como título de livro de Machado de Assis; não era psiquiatra, era alienista – empolgado com aquele espaço, lá em 1923, faz um discurso histórico, considerado uma denúncia. Ele fala ao ministro dos Negócios Exteriores, Alfredo Pinto, que a gestão dos loucos tinha de ficar a cargo do ministério da Saúde, o que não acontecia. Ele diz que ‘em nome ciência e da ordem pública esse espaço vai permitir trazer para cá todos os indesejáveis, inimigos da ordem pública, todos os loucos, os vagabundos, os iracundos, os indesejáveis portadores de delírio vermelho, que defendem as teorias anarquistas, comunistas e bolcheviques’”.
Ao longo da conversa, Amarante, pesquisador da Fiocruz e presidente de honra do Congresso Brasileiro de Saúde Mental realizado em julho deste ano, traz a memória de décadas de luta da chamada Reforma Psiquiátrica, processo de contestação aos violentos e desumanos tratamentos exercidos durante mais de um século nesses locais de horror e apagamento da vida.
“Quantas pessoas não foram internadas indevidamente... Mulheres eram jogadas lá porque engravidaram antes do casamento e a família tinha vergonha. Vi uma mulher internada numa instituição porque a família tinha vergonha dela, pois quando era criança foi diagnosticada como anã. A família mandou para lá e ela foi socialmente enterrada. Foram muitas situações assim. Me lembro que uma vez, quando iniciamos todo esse trabalho, descobrimos um cemiteriozinho no fundo da colônia, com corpos de crianças. Nunca soubemos se eram filhos de funcionários com internas, o que eram essas crianças, quando nasceram, já que havia ditadura, tinha áreas exclusivas a militares... É uma alegria ver essa página se fechar.”
Feliz com a derrota de Bolsonaro, Paulo Amarante deixa claro que as tendências de extrema-direita das políticas recentes também tiveram reflexos negativos na área da saúde mental, com o retorno de velhos e fracassados dogmas, a serviço de uma política que resguarda fortes interesses econômicos.
“As comunidades terapêuticas são uma grande falácia, uma farsa, um projeto importante seria envolver as pessoas nos tratamentos, numa construção coletiva, para colocar no lugar desses depósitos de gente, que se tornam centros de formação religiosa e também um mercado, um capital político, já que as comunidades terapêuticas recebem fortunas do Estado e fazem clientelismo com famílias, desmontam e desfinanciam a reforma psiquiátrica”.
Caberá ao novo governo um foco renovado na política de saúde mental. Retomar os avanços da Reforma Psiquiátrica, mesmo de forma crítica, como pede Amarante. Mas, acima de tudo, tornar lugares como a Colônia Juliano Moreira páginas de um passado a ser visitado apenas por meio de livros. Como escreveu Lima Barreto, que passou meses na Colônia, local de inspiração de sua autobiografia Diário de um Hospício e cuja morte acaba de completar 100 anos, foi o “cemitério dos vivos”.