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Policiais suicidas
Reportagem de Luís Adorno
Em um país dominado pelo crime, os principais responsáveis por tirar a vida de policiais são eles mesmos.
Myrella Santos tinha apenas 5 anos quando viu seu pai quase morrer durante um assalto em Diadema, na região metropolitana de São Paulo. Abraçada à mãe, escutou, apavorada, os estampidos dos tiros, seguidos de um silêncio ensurdecedor, interrompido momentos depois por uma voz masculina: "Filha, o papai está vivo, os bandidos foram presos e os policiais vão cuidar disso. Vai ficar tudo bem. O papai sempre vai resolver as coisas. O papai sempre vai cuidar de você".
Sem a farda, o 2º tenente Edvan dos Santos Silva era tido como um homem carinhoso, um marido exemplar e um pai orgulhoso de três meninas e um menino. Andava sorrindo com as vitórias do Palmeiras. Ele sonhava desde criança em ser policial. "Dizia que, a cada vez que prendia um criminoso, era um a menos na rua para fazer mal a alguém", relata a viúva Márcia Gomes, 44.
Com o tempo, o oficial foi ficando cada vez mais traumatizado. Dois episódios marcaram a família. O primeiro, quando Silva prendeu um homem que matou o próprio irmão com uma machadada na cabeça; o segundo, quando prendeu em flagrante um criminoso que estuprava uma garota de 15 anos em um matagal. Perdeu incontáveis noites de sono. Às vezes, preferia dormir no sofá da sala, com a arma debaixo do corpo.
"Foi no dia 8 de maio deste ano, Dia das Mães. [silêncio] Eu estava limpando a cozinha. [silêncio] Meu filho estava no quarto, a minha filha na sala. E ele desceu para o quintal. [silêncio] E a gente escutou um tiro. Foi isso", relembra Márcia, com voz embargada.
'MEU PAI VIROU ESTATÍSTICA'
Em um país que teve, em 2021, mais de 47,5 mil mortes violentas e mais de 1 milhão de crimes contra o patrimônio registrados, os principais responsáveis por tirar a vida dos policiais civis e militares foram eles mesmos. O suicídio de Silva não é caso de exceção.
Enquanto 43 policiais foram assassinados em serviço em 2021 no Brasil, mais do que o dobro, na ativa, cometeu suicídio: foram 101. Os dados são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em relatório divulgado em junho.
Estudante de direito, Myrella, 20, lembra do pai com carinho. "Ele sempre acreditou muito nos filhos. Nunca dizia 'não vou gastar muito naquilo'. Fazia tudo por todo mundo." E guarda um conselho: "Ele falou para eu não me envolver com um policial, porque achava que as mulheres que se casam com policiais passam por situações muito difíceis, traumas muito fortes, e acabam refletindo isso dentro de casa."
Márcia conhece bem essa história. "Ele tomava medicação porque não estava aguentando, falava que queria morrer o tempo todo", diz a viúva. Após um surto, Silva passou por um psiquiatra, que recomendou remédios e tratamento com psicólogo. Não adiantou.
Depois da tragédia, a família se sentiu abandonada pela corporação. "O governo e a polícia não fizeram nada por nós, nem sequer uma ligação para saber se a gente estava precisando de alguma coisa. Estou recebendo 70% do salário do meu marido em pensão, mas não dá para cuidar do meu filho autista", afirma Márcia.
"Cobram demais dos policiais. Eles tinham de fornecer tratamento psicológico e psiquiátrico constante, obrigatório desde o primeiro dia. Faz três meses e ele já virou estatística, é só mais um", disse a assistente jurídica Alessandra Ribeiro Silva, 24, outra filha do PM.
Consultadas pela reportagem, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) e a PM não se posicionaram sobre o caso de Silva. A PM apenas afirmou que oferece apoio psicológico aos policiais por meio do Caps (Centro de Atenção Psicológica e Social) e de seus núcleos em diversas unidades.
CABEÇA A PRÊMIO
Edvaldo Alexandre de Oliveira, 40, quase morreu na primeira ocorrência de que participou como policial militar, em 2004. Criminosos atiraram contra ele durante um assalto com reféns numa mansão em Interlagos, na zona sul da capital paulista.
Ele lembra de cada detalhe: o dono da casa estava em estado de choque, ao lado da mulher e da filha de 9 anos, abusadas sexualmente por três criminosos. Quando a polícia conseguiu entrar, os bandidos pularam o muro. No tiroteio que se seguiu, dois assaltantes morreram. O terceiro escapou.
A outra situação em que o PM reformado chegou perto da morte foi quando tentou se matar. No final de 2011, Oliveira começou a ser perseguido dentro do batalhão onde trabalhava, no Ipiranga, na zona sul de São Paulo, porque não aguentava ver a corrupção. "Ia desde o coronel até o recruta. Todo mundo era envolvido com caça-níqueis, bingo clandestino, tráfico de drogas, gente forte do PCC [Primeiro Comando da Capital]", conta ao TAB.
Era um absurdo por dia. Certa vez, numa abordagem a um dos chefes do tráfico de Heliópolis, ouviu do criminoso os nomes dos superiores. Não adiantava o policial "atrasar o lado" do traficante; no dia seguinte o criminoso estaria em liberdade. "Isso foi me adoecendo de verdade, cara."
Em janeiro de 2012, indignado com a postura de Oliveira, seu superior o mandou estacionar das 19h às 7h, sem liberação para comer ou ir ao banheiro, em frente a um supermercado na rodovia Anchieta. No dia 25, abordou um jovem com uma mochila pesada nas costas, onde conta ter encontrado cerca de 4.000 pinos de cocaína, 2.000 papelotes de maconha e 5.000 pedras de crack. "O moleque falou pra mim: 'Pô, só o senhor não 'corre' com a gente. Tá ligado que o comando [PCC] pediu a cabeça do senhor, né? 'Nóis' sabe que o senhor mora na rua X, perto do estabelecimento Y. ' Não sei te explicar o sentimento. Quem passou meus dados? O crime não tem acesso ao sistema para isso. Foi algum vagabundo que trabalhava comigo que passou", relata.
'RASGUEI A FARDA DE ÓDIO'
Depois de liberar o rapaz, Oliveira, de raiva, disparou 46 tiros para o chão. Foi seu último dia na rua como policial. O soldado entregou sua arma a uma tenente e disse que precisava ir ao Hospital São Paulo. Lá, foi sedado. Quando acordou, começou sua rotina de atestados, remédios, internações, brigas — jurídicas e pessoais — com um pensamento recorrente: morrer para acabar com o sofrimento.
Chamado para se apresentar no hospital da PM meses depois, foi obrigado a retornar ao mesmo batalhão, com restrições. "Era um caminho para me expulsarem, entendeu? Iam caçar pelo em ovo: barba mal feita, atraso? Três besteiras como essa e eu estaria na rua com uma mão na frente e outra atrás", diz.
Ao sair do hospital, Oliveira deixou a esposa em casa e teve um surto enquanto dirigia. Ao passar em frente ao aeroporto de Congonhas, na zona sul, decidiu parar o carro no meio da avenida e subir em uma torre de controle.
"Subi fardado e rasguei a farda de ódio. Joguei fora medalha, colete, bota, fiquei de cueca lá em cima. Um bombeiro foi conversar comigo, ligou para a minha esposa, foi falando os nomes dos meus filhos. Aquilo ali me segurou", relembra. Naquele dia, São Paulo registrou um dos maiores índices de congestionamento do ano, o que levou apresentadores de programas policialescos a acompanharem, ao vivo, sua tentativa de suicídio.
Após descer da torre, Oliveira ficou três meses internado. Ao sair, foi escalado para voltar ao batalhão em janeiro de 2013. O soldado acionou a PM judicialmente para, assim, permanecer afastado. Mas a PM, em vez de oferecer auxílio psíquico, instaurou um conselho disciplinar contra ele. "Me acusaram de 'despojamento desprezível' por ter rasgado a farda naquele ato e por desacato, porque diz a lenda que um coronel disse que me ouviu xingando ele, a 40 metros de altura."
POR QUE PMS SE MATAM
Oliveira foi julgado por dois capitães brancos e por um major negro. "O major foi o único que entendeu que eu não estava bem da cabeça, mas os capitães disseram que eu havia encenado tudo. Com o laudo de um psiquiatra, a advogada recorreu e um juiz acabou me aposentando", explica.
Vivendo em uma cidade do interior de São Paulo, Oliveira hoje é técnico em eletrotécnica. "A vida deslanchou depois dos cursos e do trabalho na área. Meus remédios foram totalmente cortados. Hoje eu sorrio para a vida e a vida sorri para mim."
O psiquiatra que ajudou Oliveira a recomeçar a vida é um 1º tenente da reserva da PM, que chegou a ser chefe do Setor de Psiquiatria do Centro Médico da corporação. Edson Henry Takei, 49, costuma atender a diversos policiais civis e militares de São Paulo.
"Os policiais e familiares chegam a mim pois não encontram atendimento médico especializado na instituição", afirma. Segundo ele, os PMs são muito expostos a críticas e pouco podem se expressar: obedecem ordens, têm chance alta de morrer em serviço e são mal remunerados, tendo muitas vezes que procurar "bicos".
De acordo com a cientista política Dayse Miranda, presidente do IPPES (Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídios) que estuda suicídios entre policiais há 20 anos, não é possível saber se o número tem aumentado ou se as notificações têm subido. "O policial sabe manejar o possível risco de morte num combate, mas não sabe lidar com violências verbais, humilhações públicas, uso abusivo de autoridade, perseguições."
Menos policiais morrem em serviço porque as instituições investem em treinamento. Por outro lado, diz Miranda, o suicídio ainda é um tabu. "Não se reconhece como política pública de prevenção de suicídio a segurança desses profissionais, incluindo a parte psicológica."
A psicóloga Juliana Martins, coordenadora institucional do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, explica que os policiais não costumam ter descanso, lazer e tempo de qualidade com a família. Vira uma bola de neve. "Ele tem medo de pedir ajuda porque precisa do porte de arma para fazer o bico, inclusive. Se ele pede ajuda, vai ser visto como 'fraco'. Isso vai distanciando o policial da própria humanidade."
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