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Doutora Lia Giraldo fala sobre caminhos da Frente Ampla face ao segundo turno das eleições e futuro do país

Enviado por: ialmeida
em Sáb, 15/10/2022 - 16:55

Nessa semana que se encerra a Frente Ampla em Defesa da Saúde dos Trabalhadores promoveu reunião em que discutiu a situação política do país às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais. 

A pedido do Professor René Mendes Alguns participantes organizaram reflexões sobre o tema que foram apresentadas para debate. A fala da colega Lia Giraldo da Silva Augusto foi um dos momentos mais ricos do encontro e foi baseada no texto apresentado abaixo e que também pode ser baixado pelo link no nome da autora.
Muito obrigado à Lia.

A leitura é recomendada para todos. 

Divulguem 

Conversação da Frente Ampla em defesa da Saúde dos Trabalhadores (FA)
13/10/2022
Lia Giraldo da Silva Augusto
Primeiramente quero agradecer o convite feito a mim por René Mendes para participar desta roda para trocarmos ideias sobre dois pontos:
1. Qual é o papel da FA neste momento
2. e após as eleições
Bem, não sou analista política, sou médica e membro apoiadora da FA.
Vamos, lá. Gostaria primeiro de abordar o papel das frentes amplas de modo geral, no contexto que vamos estar e, em particular, sobre esta nossa e seu papel nesses dois momentos.
Já, de algum tempo, percebemos que precisamos de um sopro novo na política brasileira.
E gostaria de perguntar, para o debate, se estamos preparados para isto?
É fato que o bolsonarismo ganhou poder para uma insurgência de extrema direita. Isto é um contexto complexo e novo para o nosso modo antigo de fazer política e nos remete a desafios que ainda não temos reflexão suficiente para nos orientar para um modo distinto de fazer política. Eu também não sei dizer qual é. Mas tenho algumas pistas do que não deve ser.
O que temos a frente?
Penso que não basta restaurar o que foi feito há 20 anos, nos governos de centro esquerda, que na verdade não foi realizada nenhuma reforma estrutural. Mas, mesmo feito pouco diante das necessidades, o que foi realizado - após a redemocratização do país - nos parece muito para um país tão desigual.
Precisamos refletir muito frente ao fato de que não somos mais uma sociedade majoritariamente de trabalho e assalariado. Como tendencia ela está perdendo força.
Então como vamos pautar as lutas dos trabalhadores, como construir pautas para além das bolhas reivindicativas, e de identidades corporativas? Estas devem permanecer, são legitimas e necessária, mas não suficientes. Não podem se limitar ao campo restrito de interesses corporativos. Tudo está muito conectado para soluções simplistas.
Estamos em um contexto global e nacional dramático.
Ao desastre ambiental e às mudanças climáticas, por exemplo, se soma a massa de gente precarizada e desalentada, os condenados nesta terra. Uma massa gigantesca que convive permanente com a desgraça, que é decorrente das profundas iniquidades sociais e injustiças ambientais - duas faces de uma mesma moeda. Sem falar que estamos novamente sob
ameaças de uma hecatombe nuclear, quem imaginaria isto no século XXI?
As ondas migratórias mundiais, que estão a se intensificar, e os processos de violência localizados nos bolsões de pobreza das periferias urbanas e que no Brasil profundo se somam ainda à dos povos das florestas e dos camponeses, são fatos hoje mensuráveis, não há como esconde-los, a exemplo da sobre taxa de mortes por Covid-19, do assassinato de indígenas e da destruição ambiental.
O capitalismo verde aparece como a mais nova enganação, sabemos que não vai resolver nada desses enormes problemas.
Talvez metaforicamente estejamos bem mais perto do fim do mundo, onde o aquecimento do planeta Terra, esta enorme maquina termodinâmica, está entrando em colapso socioambiental.
O capitalismo não resolveu os problemas urbanos do mundo e criou as condições do surgimento de um forte movimento negacionista e fundamentalista, que aqui no Brasil tem mostrado sua cara nestes últimos anos causando uma certa perplexidade no ambiente intelectual, na esquerda, e em segmentos ainda não cooptados da sociedade. Isto faz
proliferar religiões apocalípticas, com enorme aproveitamento pela extrema direita, com risco concreto de se naturalizar uma visão fascista do mundo e de sua governabilidade.
Como diria Bruno Latour, falecido esta semana, o antropoceno que observamos na questão ambiental é também um sintoma da forma politica de um novo fascismo que está se desenhando para sustentar o capitalismo rentista e financista.
Quem assistiu ao filme “Estou me preparando para quando o carnaval chegar” pode ver nele algo profético. Será que é isto que resta para os trabalhadores? Ter dois ou três dias, no ano, de alegria, de felicidade, para compensar todos os outros de escravidão, transvestido de empreendedorismo. O novo mito, a nova crença de que você é capaz de ser o empreendedor e de se sair vitorioso é a nova onda alienante dos trabalhadores. Vencer é por sua conta e risco.
Um novo discurso para a velha trama do amo e do escravo.
Hoje o capitalismo de modo eufemista se esconde na defesa da liberdade individual. Todos empreendedores e senhores de si!
Ironia, o patrão fica oculto. O explorador do meio ambiente aparece como politicamente correto.
A exploração capitalista está maquiada. O patrão invisibilizado! Nem o estado é responsável por nada. Se você não deu certo é porque você é um looser (perdedor).
Precisamos sim de uma visão alternativa, de uma esperança nova para disputar o futuro.
Não podemos prometer felicidade, pois sabemos que esta não vai durar mais do que um flash.
Para os socialistas, e eu estou entre esses, continuamos buscar acabar com a exploração dos humanos e da natureza por outros humanos.
Se historicamente perdemos com a revolução de 1917, temos de continuar a refletir o por que, mas não nos tira com isto a utopia. Só sei que tem um caminho, o de imaginar juntos, para entender com o que sonham as pessoas, o povo para instituir um diálogo onde os significantes em jogo possam ser compreendidos para permitir algumas escolhas que não
sejam o abismo, como aquele que as meninas-moças do filme “Silenciadas” tiveram como única alternativa para não se subjugarem.
Os discursos relacionados apenas com os temas da austeridade fiscal, o teto de gasto, a reconstituição dos órgãos de fiscalização e controle, da autonomia dos poderes da república, da ciência e tecnologia, de refazer o arcabouço burguês do capitalismo brasileiro não será suficiente diante da torre de Babel instalada. Estamos diante de uma enorme crise de linguagem, estamos diante da hegemonia do sem sentido.
Será que conseguiremos fazer barreiras às nocividades produzidas pelo agro, pela Vale, pelas samarcos?

Vamos ficar apenas na redução de danos?
Só vejo que para enfrentar todas essas adversidades precisaremos mobilizar corações e mentes. E isto é trabalho para começar agora, mas que deverá se sustentar por uma ou duas gerações para construir aspirações reais para uma transcendência da visão autocrática que
está sendo plantada. Nossa utopia hoje é a defesa da democracia, coisa que parecia antes um consenso e vemos quanto estávamos iludidos. Precisamos do inconformismo, da indignação frente ao sofrimento e às iniquidades para enfrentar a normalização da extrema direita.
Chegar junto ao povo é nosso caminho. Precisamos dialogar mais com o movimento sindical para terem um papel protagonista junto aos movimentos sociais frente a esta nossa realidade.

Lia - Fala para Frente ampla (55.17 KB)
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