2 em 1. Deu no OUTRA SAÚDE: Sindemia e 150 mil mortes registradas pela covid-19
PERSPECTIVA DIFERENTE
Neste fim de semana a BBC pôs em destaque um artigo publicado em setembro por Richard Horton, editor da revista The Lancet, que na época passou batido nos principais meios de comunicação. Ele argumenta que não adianta tratar a crise da covid-19 como uma pandemia porque na realidade se trata de uma sindemia – e sindemia é quando duas ou mais doenças interagem de tal forma que causam danos maiores do que a mera soma dessas duas doenças.
Temos a covid-19 junto com uma série de doenças não-transmissíveis (DNTs), sendo que estas últimas são agravantes da primeira. Assim, atacar as DNTs seria pré-requisito para uma contenção bem-sucedida do novo coronavírus: "Abordar a covid-19 significa abordar a hipertensão, obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e respiratórias crônicas e câncer", escreve o autor, ressaltando que essas doenças não são uma agenda apenas das nações mais ricas. Aliás, ele sublinha a taxa desproporcional de doença e morte (tanto por covid-19 como por DNTs) na população de baixa renda e de minorias étnicas. "Não importa quão eficaz seja um tratamento ou quão protetora seja uma vacina, a busca por uma solução puramente biomédica contra a covid-19 vai falhar"; alerta. E conclui: "A menos que os governos elaborem políticas e programas para reverter profundas disparidades sociais, nossas sociedades nunca estarão verdadeiramente protegidas da covid-19".
150 MIL MORTOS
Chegamos no sábado às 150 mil mortes pela covid-19. Segundo especialistas ouvidos pela BBC Brasil, contudo, essa marca foi ultrapassada “há algumas semanas”, por conta do caminho que uma notificação precisa percorrer até ser computada no sistema nacional: indo do município para o estado e, finalmente, para o governo federal. De qualquer forma, levando em consideração também a subnotificação e comparando com dados de outros países, pesquisadores da USP calculam que o país já tenha ultrapassado as 200 mil mortes causadas pelo SARS-CoC-2.
Nas estatísticas oficiais, contudo, os números de mortes e casos continuam em decrescimento. No sábado, pela primeira vez desde maio, a média móvel de mortes ficou abaixo de 600, em 590. Ontem, a média tinha caído mais um pouquinho, para 562. O diretor de emergências da OMS, Michael Ryan, afirmou ontem que embora haja uma tendência de queda por aqui, ela ocorre a partir de números "muito, muito altos".
Dois estados se alternam na pior colocação quando o critério é o número de mortes por milhão de habitantes: Rio de Janeiro e Distrito Federal. Uma reportagem do Estadão tenta entender o mau desempenho. No caso fluminense, embora não haja consenso, os especialistas ouvidos concordam que faltou compromisso político e competência. E ainda falta, já que nas últimas semanas o estado vem registrando aumento nas internações nas redes pública e privada de saúde e nada disso muda disso se reflete em readequação no plano de reabertura econômica. Já no DF, as cidades-satélites e comunidades pobres da capital sofrem com falta de infraestrutura de saúde. A mudança na postura do governador Ibaneis Rocha (MDB), que passou a aderir ao discurso de Bolsonaro, também foi lembrada.
Um estudo da UFRJ feito em parceria com o Instituto Francês de Pesquisa e Desenvolvimento concluiu que cidades com maior quantidade de trabalhadores informais foram as mais afetadas pela pandemia no Brasil. Segundo os pesquisadores, para cada dez pontos percentuais de informais a mais na população, a taxa de contágio aumenta em 29% e a taxa de mortalidade, 38%. Dois municípios ilustram bem o problema: Florianópolis e Boa Vista. No primeiro caso, 23% dos trabalhadores são informais em uma população de pouco mais de 500 mil. No segundo, esse número chega a 41% num total de 399 mil habitantes. Em 11 de agosto, a capital de Santa Catarina tinha 938 contaminados e 15 mortes para cada 100 mil habitantes. Já a capital de Roraima tinha 6.847 infecções e 108 mortes por 100 mil habitantes.
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