Por ocasião do primeiro ano de aniversário do rompimento da barragem de rejeitos minerais do Córrego do Feijão, em Brumadinho destaco abaixo duas chamadas de reportagens (10 de março de 2019 e 26 de janeiro de 2020 - ontem) em que o acontecido é apontado pelos condutores de inquérito policial como crime cometido pela alta cúpula / dirigentes intermediários da VALE
01. Depoimentos levam MP a afirmar que a tragédia em Brumadinho não foi acidente
(https://globoplay.globo.com/v/7444797/)
9 min Exibição em 10 Mar 2019
O Fantástico teve acesso, com exclusividade, aos depoimentos prestados para a força-tarefa que apura as responsabilidades pela ruptura da barragem de Brumadinho, tragédia que ainda contabiliza seus mortos. Cinquenta e nove pessoas já foram ouvidas.
02. Brumadinho: documentos indicam que Vale sabia das chances do rompimento da barragem
Um ano após a tragédia, o Fantástico teve acesso às provas que levaram o Ministério Público a denunciar a cúpula da Vale.
Por Fantástico 26/01/2020 23h03
A tragédia em Brumadinho completou um ano no sábado (25). Duzentas e cinquenta e nove pessoas morreram depois do colapso da mina Córrego do Feijão, operada pela Vale. Onze seguem desaparecidas.
O Fantástico revela parte das provas reunidas pelo Ministério Público pra denunciar a cúpula da empresa. São mensagens de áudio e trocas de emails que, segundo o MP, comprovam que o desastre poderia ter sido evitado. Veja a reportagem completa no vídeo acima.
Comentário preliminar de Ildeberto Muniz de Almeida
No vídeo de 26 de janeiro chama a atenção a resposta determinada pelo presidente da empresa a e-mail que recebeu dias antes do rompimento da barragem falando de grande números de problemas que estariam acontecendo no "chão de fábrica" em função dos cortes financeiros determinados. Entre outros alertas o de que barragens estariam operando no limite".
A resposta foi direta. ordem no sentido de idnetificar quem seria aquele camarada que agia contrariando os interesses da empresa. Ele deveria receber tratamento exemplar (falou algo equivalente a isso)
Essa postura merece ser comparada com aquela determinada em normas vigentes nos EUA a respeito da importância a ser dada aos Wistleblowers. Aos chamados lançadores de avisos.
Organizações que investem na "alta confiabilidade ("HRO") há mais de uma década destacam a importância da valorização desses avisos por parte da gestão de segurança. O mesmo é destacado em obras de outros estudiosos da segurança, como por exemplo, Michel Llory e seus colegas do Grupo CHAOS, na França.
Na VALE a ordem foi caçar e punir quem teve a coragem de alertar para o que estava acontecendo.
Por sua vez, quase no final do vídeo de março de 2019 é dito que em sua defesa a VALE, afirma algo mais ou menos assim
“todas medidas tomadas foram medidas normais de segurança”
Essa resposta chama a atenção para aspecto que considero dos mais difíceis de serem enfrentados quando se trata de decidir entre crime e acidente.
Em primeiro lugar vale destacar que sendo verdadeira a afirmação estamos diante de confissão do fracasso da gestão de segurança assumida no sistema.
A mim parece importante puxar os fios ligados a essa afirmação. Cada uma das decisões específicas.
O vídeo de janeiro lista depoimentos de engenheira e contratada da VALE que após análise da barragem, cerca de 1 ano antes do desastre, informa não poder atestar a estabilidade da mesma.
Mostra também que essa empresa foi afastada pela VALE que contratou em seu lugar a TUV SUD. E cita troca de mensagens entre técnicos da nova contratada reiterando a falta de segurança da barragem. Isso pouco dias antes da emissão de sua conclusão atestando a estabilidade da barragem.
O contexto de pressões nas conversações está também citado.
No entanto faltam detalhes que esclareçam quem e como participou nessas tomadas de decisão. Quais as pressões a que estavam submetidos.
Quais os critérios adotados nessas “decisões normais”?
Podemos considerar como certo o fato de que engenheiros, geólogos e outros profissionais envolvidos que optaram por escolhas como a de colocação dos dutos de drenagem pouco antes do rompimento acreditavam poder resolver o problema. Mas falta na informação divulgada mais informações sobre como foi feita essa escolha. Quais as opções consideradas? Houve a oportunidade de fala para quem pensava diferente? que argumentos foram considerados em favor de cada opção?
Outras perguntas podem ser destacadas puxando esse fio.
Como era historicamente na empresa o tratamento dado a esses processos. Em algum momento de sua história a empresa já adotara decisão que contrariasse a continuidade das atividades de produção em função da necessidade de priorizar a segurança? Se sim, o que aconteceu com os envolvidos?
Se sim, como? Em algum momento a decisão era sustentada claramente em recomendação de agente externo aos seus quadros, como os representantes da TUV SUD ou da contratada anterior?
O mesmo tipo de questionamentos deve(ria) ser feito em relação aos atrasos ou postergações ocorridos na empresa em relação às recomendações apresentadas nos relatórios das empresas contratadas para avaliar a situação da barragem Qual a tramitação dada a esses relatórios? Quem decidiu não adotar as medidas? (ou encaminhar consulta que ficou sem resposta). Como o sistema gerencia essas questões?
Em tempos de financeirização e globalização já há estudos de acidentes anteriores, como no caso da Deep Water (horizonte profundo) e outros relatando rede de decisões e escolhas gerenciais que desempoderavam os atores ligados à atividade fim propriamente dita na empresa e deixavam terreno livre para as decisões de quem priorizava os lucros e dividendos imediatos de acionistas. Estudos que exploraram balanços da VALE mostram o predomínio do mesmo tipo de decisões nos 3 anos que se seguiram à tragédia similar ocorrida em Mariana.
As reportagens e comentários acima visam repercutir a importância do tema. Estimular a escolha de caminhos que ajudem a limitar as possibilidades de tragédias similares. E que o país aprenda com o acontecido. O clima criado diante da acusação de dolo feita às decisões da empresa tende a dificultar avanços na tentativa acima sugerida de ir mais fundo no esclarecimento dos processos de tomada de decisão.
Mas ao mesmo tempo é muito importante destacar o fato de que talvez essa seja uma das primeiras investigações ocorridas no país em que se tem acesso a informações como aquelas da troca de mensagens havida na empresa, inclusive com membros de sua alta gerencia. Não tenho notícia de que esse tipo de informação tenha sido acessado por membros das equipes técnicas de profissionais que investigaram o acidente. Na minha opinião uma das lições a serem tiradas desse caso é a necessidade de empoderar técnica e politicamente o aparato institucional (minstério da Saúde, área de saúde e segurança do finado Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério de Minas e Energia, etc) e científico (notadamente universidades e institutos de pesquisa) que podem e devem ser mobilizados na investigação da história do ocorrido. Sem esquecer que isso também deve ser estendido às conseqências tardias do evento. O que exige manter estudos de longo prazo explorando o mais amplo leque de efeitos identificados (econômicos, de saúde, ambientais - destaque para águas de abastecimento e vida aquática, sobre patrimônio histórico e cultural, etc)
Ildeberto Muniz de Almeida
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