Artigo longo e instigante discute a relação entre desastres de barragens e períodos de desvalorização do minério no mercado.
Arrisco comentário sem ter lido os originais citados. Pessoalmente acho importante que esse tema seja explorado em profundidade buscando outras mediações associadas que ajudem a evitar ou minimizar aceitação de ideia de causalidade direta do tipo "Se x, então y".
Estudos internacionais chamam a atenção para a importância de que se explore a possibilidade de interações como a que o artigo aponta, mas também destacam que a(s) mesma(s) "causas" também estariam presentes em outros cenários em que não ocorreram desastres. Isso sugere a necessidade de estudos que explorem em detalhes singularidades que o tipo de relação explorada no estudo não é capaz de revelar.
PB (Ildeberto)
Risco de rompimento de barragens de rejeitos aumenta com queda no preço dos minérios
(Vejam início da reportagem abaixo. Para o texto completo, acessem o link do título)
Elton Alisson | Agência FAPESP – A volatilidade de preços é uma característica intrínseca às commodities, como os minérios de ferro. Nas últimas cinco décadas, por exemplo, esses produtos passaram por diversos ciclos de valorização seguidos por períodos de desvalorização.
Um estudo feito por pesquisadores canadenses, com base na análise de 143 desastres em mineração reportados no mundo entre 1968 e 2009, apontou que há uma correlação entre os ciclos de alta e de baixa dos preços dos minérios no mercado internacional com rompimentos de barragens de rejeitos.
A explicação dos pesquisadores para essa correlação é que, em períodos de elevação dos preços dos minérios, normalmente os procedimentos de licenciamento e de execução da construção de barragens de rejeitos são acelerados em razão da pressão das mineradoras para aproveitar essa fase de bonança. Já em períodos subsequentes de queda no preço dos minérios, há uma pressão, também por parte das empresas, para reduzir os custos operacionais, como os de manutenção e de segurança dessas obras. Em razão disso, há um aumento do risco de rompimentos de barragens nessa fase de baixa de preços tanto em intervalo de tempo como em número.
“Ficou muito claro nesse estudo que há uma correlação entre o ciclo de baixa de preço de minérios, como o cobre, com um aumento no número de rompimentos de barragens de rejeitos”, disse Bruno Milanez, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), durante um seminário promovido pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), no dia 14 de fevereiro, sobre os desastres de Mariana e Brumadinho.
O evento fez parte das atividades do Projeto Temático "Governança Ambiental da Macrometrópole Paulista face à variabilidade climática" (MacroAmb), apoiado pela FAPESP.
“Apesar de estar em uma região que não é coincidente com a macrometrópole, Brumadinho traz uma temática que é fundamental, que é a discussão sobre a mineração e seus efeitos sobre a sociedade quando não há responsabilização e adequação a normas legais e de segurança”, disse Pedro Roberto Jacobi, professor do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP e coordenador do projeto, à Agência FAPESP.
Link para video na reportagem: lições não aprendidas.
O texto conclui com indicações de duas referências destacadas abaixo:
O artigo Mining market cycles and tailings dam incidents, de Michael Davies e Todd Martin, publicado no Proceedings of 13th International Conference on Tailings and Mine Waste, pode ser lido em https://docplayer.net/14797608-Mining-market-cycles-and-tailings-dam-incidents.html.
E o artigo Antes fosse mais leve a carga – reflexões sobre o desastre da Samarco/Vale/BHP Billiton, de Bruno Milanez, Luiz Wanderley, Maíra Mansur, Raquel Pinto, Ricardo Gonçalves, Rodrigo Santos e Tádzio Coelho, pode ser lido no livro “A questão mineral no Brasil”, volume 2, em www.ufjf.br/poemas/files/2016/11/Livro-Completo-com-capa.pdf.
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Correlações e riscos
Penso que a leitura vale a pena. No entanto, correlacionar variáveis agregadas, ecológicas (segundo a Epidemiologia) e atribuir causalidade ao achado estatístico é falacioso, ainda mais em um nível individual. O achado suscita uma série de questões a serem abordadas sobre outro paradigma científico que possa medir riscos individuais (e situações particulares) com melhor precisão e robustez metodológica.