por Ildeberto Muniz de Almeida - domingo, 4 maio 2014, 14:00
divulgo notícia enviada pelo AFT João Batista (JB) de Campinas
Ari fórum novo devido ao tema
PB
Saúde na escola Prevenir é preciso
Adequar os espaços à faixa etária dos alunos, criar uma rotina de manutenção e envolver a comunidade nas ações de prevenção são estratégias fundamentais para evitar acidentes nos ambientes escolares
Christina Stephano de Queiroz

No estacionamento do Colégio Duque de Caxias, na cidade de mesmo nome, no estado do Rio de Janeiro, funcionários e pais só conseguiam sair da instituição com o carro de ré, o que dificultava a visualização das pessoas que passavam atrás dos veículos. Atentos ao problema, os estudantes sugeriram à direção da escola redesenhar a organização das vagas - uma solução simples para uma situação que apresentava riscos graves à comunidade escolar. Os gestores concordaram com a ideia e hoje a saída dos carros é frontal, o que reduziu os riscos de acidentes na instituição, que atende mais de dois mil alunos do ensino fundamental e médio.
O exemplo ilustra a tendência de criação de uma cultura de prevenção que envolva toda a comunidade escolar. No colégio, esse trabalho já vem sendo feito desde os anos 1990, quando o técnico em segurança do trabalho Orlandino dos Santos, morador da região, começou a orientar os alunos de forma voluntária sobre como melhorar a segurança da unidade. O esforço deu resultado e hoje a unidade conta com uma Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa) Escolar, que reúne alunos responsáveis por fazer o levantamento de riscos nos diversos ambientes e pensar em formas de evitá-los, como no caso do estacionamento. "As comissões ajudam as escolas a criar uma cultura de prevenção generalizada, pois os alunos levam as práticas às suas casas e, posteriormente, aos seus ambientes de trabalho", acredita Santos, que é o idealizador da Cipa Escolar e do Dia Nacional de Segurança nas Escolas, que vigora, desde 2012, no dia 10 de outubro.
Ailene da Silva Gonçalves, diretora da instituição, lembra também que como a escola atende diversos alunos com deficiências, o trabalho de prevenção se torna ainda mais importante. Desde 2005 a escola está adaptada para receber esses alunos, contando com recursos como rampas antiderrapantes, pisos para guiar cegos, borrachas nas pontas das escadas e banheiros para cadeirantes.
"Reconhecer o risco é o primeiro passo para evitar acidentes. No caso das escolas, é preciso criar e desenvolver competências para eliminar essas situações ou aprender a conviver com elas nos casos em que não puderem ser removidas ou modificadas", afirma Francisco de Paula Nunes Sobrinho, professor da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). O docente também ressalta que a visão de que os acidentes são acontecimentos fortuitos e desagradáveis tem mudado na medida em que a cultura de prevenção se expande.
Dóris Casella, diretora do Centro de Educação Infantil (CEI) Vila Basileia e diretoria regional de educação em Jaçanã/Tremembé (São Paulo), aponta para a gravidade do problema. "Em jovens com menos de 14 anos, os acidentes ocasionam quase 6 mil mortes e cerca de 140 mil admissões hospitalares na rede pública de saúde a cada ano. A criança apresenta interesse em explorar situações novas, para as quais nem sempre está preparada, o que também eleva os riscos e a necessidade de cuidados." Para ela, ao se voltar para práticas de prevenção de acidentes, a escola também desenvolve melhores critérios na compra de brinquedos, nas alterações arquitetônicas dos espaços e na aquisição de utensílios e materiais pedagógicos.
Na avaliação de Dóris, os acidentes possuem causas e origens como qualquer outra doença, podendo ser, portanto, evitados e controlados. "E isso deve ser feito por meio de um conhecimento detalhado dos acidentes mais frequentes em cada faixa etária, o que permite elaborar medidas preventivas", aconselha. Como exemplos, ela chama a atenção ao fato de que crianças de até um ano costumam levar todos os objetos à boca, sendo necessário adotar cuidados redobrados para evitar a ingestão de produtos perigosos. Já alunos de um a três anos apresentam atividades motoras intensas, como andar, correr ou subir escadas, o que aumenta o risco de quedas. "Nesse caso, uma medida simples como colocar piso emborrachado no parquinho reduz os riscos."
Ações
A coordenadora de mobilização da ONG Criança Segura, Lia Gonsales, recomenda que as instituições planejem suas estruturas das quadras e parquinhos utilizando pisos que absorvam quedas e brinquedos cuja altura não ultrapasse 1,5 metro. "A manutenção constante desses espaços também é importante, bem como o uso de barreiras para evitar a entrada das crianças na cozinha ou no local de armazenamento de materiais de limpeza", afirma. Outros pontos de atenção, segundo ela, são as capas em fios elétricos e fiações, a colocação de pisos antiderrapantes e a proteção de armários e objetos pontiagudos. "Os alunos também devem ser incentivados a usar equipamentos de segurança, como capacetes, joelheiras e coletes salva-vidas na prática de esportes", analisa. Além disso, a supervisão dos adultos é essencial para garantir a segurança, sendo necessário existir ao menos um educador para cada três ou quatro crianças, conforme a idade. Lia comenta que estudantes menores demandam cuidados ainda mais intensos, por meio de proteções nas escadas e do uso de brinquedos adequados à sua faixa etária.
Para Dóris, a compra de brinquedos representa outro desafio para a escola, pois muitos que não são aprovados nos testes de qualidade continuam, mesmo assim, a ser adquiridos pelos gestores. "Isso acontece porque os produtos seguros e de qualidade indiscutível têm preços elevados, o que dificulta a compra em larga escala", diz a diretora, que acredita que a fiscalização das indústrias de brinquedos não é eficaz.
Outra causa de acidentes está relacionada à agressividade entre alunos. "Atitudes agressivas, físicas ou verbais, intencionais e repetidas, executadas por um ou mais estudantes contra outro e baseadas na relação de poder do agressor sobre a vítima são denominadas bullying e merecem atenção redobrada de professores, funcionários e da direção da escola", alerta Dóris.
Rotina segura
Para Glaura César Pedroso, médica da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro do Departamento de Saúde Escolar da Sociedade de Pediatria de São Paulo, a falta de manutenção dos edifícios e dos equipamentos e a ausência de treinamento para identificar e solucionar os problemas são alguns dos maiores entraves à segurança dos alunos. Ela assegura que a escola deve incorporar a segurança como um item a ser verificado na sua rotina diária, sendo que os procedimentos necessitam ser conhecidos e aplicados por toda a comunidade escolar. Também é preciso ter, em todos os períodos de funcionamento da unidade, educadores e funcionários treinados para o caso de incêndios e que saibam aplicar os primeiros socorros. "Um obstáculo a esse treinamento é a alta rotatividade de professores e funcionários, o que impede que os conhecimentos adquiridos sejam aplicados e multiplicados na escola", diz Glaura.
No que diz respeito a incorporar práticas de segurança na rotina da escola, a pediatra conta que há vários projetos em andamento, como o chamado CEPAV - Comissão Escolar de Prevenção de Acidentes e Violências -, também conhecida como Cipave ou Cipa, que é adotado por diversos governos municipais e estaduais. O objetivo desses projetos é criar normas seguras, dinâmicas e constantes para proteção das crianças no ambiente escolar, estimulando uma atitude preventiva em toda a comunidade. As atribuições desses grupos incluem o levantamento das condições de risco do ambiente; a adoção de medidas para neutralizar ou reduzir os riscos existentes; participação na análise das causas de acidentes e proposição de soluções para os problemas encontrados; o desenvolvimento e a organização de cursos e oficinas sobre o tema; e a difusão da cultura de prevenção e de promoção da saúde.
Para evitar acidentes: |
- Envolver toda a comunidade escolar no desenvolvimento da cultura de prevenção; - Contar com uma Comissão Interna para Prevenção de Acidentes (Cipa); |
http://revistaescolapublica.uol.com.br/textos/37/prevenir-e-preciso-308501-1.asp




