Nova ministra tomou posse e acena para novo período na gestão da pasta. Entre as preocupações principais estão a defesa da ciência, a vacinação, a Atenção Básica, a Saúde Indígena e a superação do obscurantismo e dos preconceitos
Entidades da Saúde repudiam atos fascistas em Brasília
Como não poderia deixar de ser, diversas entidades do campo da saúde manifestaram indignação com a intentona fascista da extrema-direita brasileira neste domingo, 8/1. A Frente pela Vida, que congrega movimentos de diversas áreas da saúde, foi taxativa em sua nota. “Ao vandalizar prédios dos poderes da república, esses grupos expressam sua natureza fascista, que marcou fortemente o governo anterior. Desrespeito, política de confrontação com os outros entes federados, necropolítica, genocídio e tantas manifestações de opressão e violência contra a população trabalhadora foi o cotidiano vivido nestes últimos anos no país”. Outros grupos do campo da saúde e da ciência, como Movimento Sou Ciência, Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, Fiocruz, Sociedade Brasileira de Bioética e até o CFM (cuja presidente interina, Rosylane Rocha, esteve nos ataques ao Congresso) se posicionaram contra a tentativa de golpe de Estado que marcou o dia 8 de janeiro. A nova ministra da Saúde, Nísia Trindade, também condenou o episódio de violência extremista: “Dia 8 de janeiro ficará registrado como um dos mais tristes da história do país. Nossa convicção é a de que rapidamente viraremos essa página e seguiremos na afirmação da democracia, do direito de todos à saúde, à qualidade de vida, à educação e a um futuro digno”.
Nísia Trindade é ministra – e defendeu o SUS e a Ciência em seu primeiro discurso
A ministra da Saúde do governo Lula, Nísia Trindade, reforçou a importância das vacinas e defendeu que sua gestão será pautada pelo diálogo com a comunidade científica do país em seu discurso de posse, em 2/1. Ela, que foi presidente da Fiocruz 2017 e 2022, destacou a importância de uma política autônoma na produção local de fármacos e disse que o represamento de fila precisa ser uma agenda do setor público. Também destacou a importância da retomada das coberturas vacinais e do programa de imunizações. Em seu discurso, foi enfática em relação à necessidade de desfazer todos os males cometidos na Saúde durante o período Bolsonaro. “O governo que se encerrou nos trouxe um período de obscurantismo, de negação da ciência, cultura. Na tradição da pedagogia Paulo Freire, que gosto de chamar de valores antecipatórios, quero chamar a atenção da importância de trabalhar de uma outra forma a relação de religião e ciência, religião e sociedade”, disse. Nesta matéria daFolha, também se pode ver as principais nomeações de sua equipe.
“Quatro anos de reconstrução”
Professora de Saúde Coletiva da UnB, Silvia Badim Marques elencou as principais tarefas do ministério comandado por Nísia. Diante de tantos crimes cometidos por uma gestão que atuou de maneira golpista dentro da institucionalidade, a professora destaca que resolver o apagão de dados é um obstáculo para a organização da nova administração. “Informações controversas, apagadas, falta de preenchimento nos sistemas. A gente não consegue fazer política de saúde se não tem dados adequados”, disse aoMetrópoles. Entre outros temas, o país terá de recuperar as taxas de vacinação na população, garantir a retomada da atenção primária (o que sugere o retorno do Mais Médicos) e o respeito à diversidade sexual e os direitos reprodutivos no âmbito da política de saúde.
A retomada da Reforma Psiquiátrica e o fechamento dos últimos hospícios
A nova equipe do governo que assumiu a gestão da saúde mental promete retomar os princípios da reforma psiquiátrica e fechar os últimos hospitais exclusivos para pacientes com transtornos psíquicos no país. O objetivo será “expandir e integrar” a rede de serviços, principalmente as equipes de saúde da família e os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), com foco em populações mais vulneráveis. O planejamento vai na contramão da política implementada pelos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, que cortaram investimentos destinados ao financiamento de novas unidades de atendimento e cuidado – priorizando “comunidades terapêuticas”, quase sempre de tendência religiosa, para a internação de dependentes químicos.
Comentário: Ildeberto Muniz de Almeida
A médica Rosylane Rocha, presidente interina do Conselho Federal de Medicina acima citada, é também presidente da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT).
Nós do Fórum AT e da Frente Ampla em defesa da Saúde de trabalhadores e trabalhadoras nos somamos aos organismos da sociedade civil brasileira que manifestamram seu repúdio aos atos terroristas cometidos em Brasília no último final de semana.