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Duas opiniões de Engenheiros da Escola Politécnica da USP

Enviado por: ialmeida
em Sex, 22/02/2019 - 14:41

Duas opiniões:

01. Vahan Agopyan. Reitor da USP e professor titular da Escola Politécnica.

02. Maria Eugenia Boscov. Professora titular do Departamento de Engenharia de Estruturas e Geotécnica da Escola Politécnica da USP

A engenheira não é uma ciência exata.
(Vahan Agropyan) (Jornal da USP)

Sempre que ocorre um acidente ou desastre resultante de uma atividade de engenharia, sinto-me na obrigação de divulgar o que é essa profissão na realidade. Nesses momentos, surgem os autodenominados especialistas, fazendo conjecturas, apresentando diagnósticos e propondo soluções, normalmente simples e erradas.

Depois da tragédia de Brumadinho, aguardei um pouco para não ser interpretado como corporativista nas minhas considerações e nem como se estas fossem para justificar o comportamento dos envolvidos.

O excelente texto de Maria Eugênia Boscov, publicado neste jornal (“‘Acidentes talvez não fossem evitáveis, mas tragédias, sim’”), esta sim especialista respeitada nacional e internacionalmente, no qual explica, de maneira didática, que acidentes podem acontecer, mas desastres não são admitidos, estimulou-me a externar meus comentários. O artigo é irretocável, entretanto, quero reforçar um ponto importante: o engenheiro trabalha com incertezas.

Quando se vê o engenheiro empregando modelos físicos complexos e matemática sofisticada, fica a falsa impressão de que a engenharia é uma ciência exata. Os modelos são detalhados e os cálculos, precisos, mas embasados em dados não tão exatos.

A engenharia se relaciona com a natureza, aplicando materiais, métodos e processos reais, todos com variabilidade inerente, que resulta em incerteza do projeto como um todo. O engenheiro é treinado para estimar tais variáveis e tomar decisões com incertezas.

Alguns colegas, inclusive acadêmicos, não atentam a esse fato. A engenharia é posta com as ciências exatas, confundindo os próprios alunos. Matemática, física, química e biologia são imprescindíveis para o desenvolvimento das ciências da engenharia, nas quais os modelos são desenvolvidos, geralmente probabilísticos, porém com certo grau de empirismo.
As variáveis são analisadas e adotadas e os riscos, estimados e assumidos. O bom engenheiro é treinado para analisar as variáveis intervenientes no processo e estimar os riscos, com a habilidade de decidir com dados inexatos.

Essa competência faz com que os profissionais sejam disputados em outros setores, como na área financeira, sendo seduzidos por ganhos que a engenharia não pode oferecer.

Não é simples compreender a atividade desse profissional e aceitar que, nos projetos de engenharia, se pode ter falhas inerentes ao processo de trabalho. Os acidentes, quando devidamente estudados, são fontes para o avanço do conhecimento. Logicamente, não se aceitam desastres.

Outro aspecto debatido nos ambientes profissionais é admitir que, nas últimas décadas, o Brasil desprezou sua engenharia. Na área privada, empresários preferiram comprar patentes do exterior, mais baratas do que seu desenvolvimento local e cuja solução pode ser aplicada sem ter que esperar anos até que os resultados possam ser utilizados na indústria.

Eles não atentam ao fato de que compram uma caixa-preta, tornando a empresa dependente do detentor do conhecimento. Ou então, de uma versão ultrapassada, para produção de baixo custo nos mercados do terceiro mundo.

Empresas de renome, inclusive da agroindústria, geram e utilizam conhecimento novo. Do lado público, com a lei 8.666, que cerceia a possibilidade de fornecimento de produtos inovadores, o governo não consegue aplicar seu poder de compra para estimular o desenvolvimento do conhecimento, subsídio aceito pelos organismos internacionais.

Sem expansão do conhecimento, não há campo para o desenvolvimento da engenharia, em consequência, os salários ficam menos atraentes e, assim, bons profissionais são cooptados para outras áreas. Por fim, dentro da indústria, as equipes de engenharia não têm o reconhecimento de seu trabalho.

Esse tema merece discussão mais ampla e indica um comportamento que explica, mas não justifica, a pouca capacidade de atuação dos engenheiros para combater desmandos que resultam em tragédias, muitas delas anunciadas.

Vahan Agopyan
Reitor da USP e professor titular da Escola Politécnica.

 

Acidentes talvez não fossem evitáveis, mas tragédias, sim', diz engenheira
Para Maria Eugênia Gimenez Boscov, especialista em geotecnia ambiental, prisão de engenheiros foi 'no mínimo' precipitada

A engenheira Maria Eugenia Gimenez Boscov, especialista em geotecnia ambiental, afirma que não existe uma barragem totalmente segura. Isso não significa, entretanto, em sua opinião, que tragédias como a de Brumadinho e Mariana (MG), não poderiam ter sido evitadas.

"Os acidentes, talvez, não fossem evitáveis", diz a professora titular do Departamento de Engenharia de Estruturas e Geotécnica da Escola Politécnica da USP. "Mas as tragédias eram perfeitamente evitáveis."

Maria Eugenia afirma ser necessário estudar os chamados "cenários de ruptura", simulando seus efeitos e, consequentemente, adotando providências para que um eventual acidente não se transforme em uma tragédia.

A professora diz também que foram, "no mínimo" precipitadas as prisões dos engenheiros André Yassuda e Makoto Namba, contratados para fazer os laudos de estabilidade da barragem. "São profissionais altamente gabaritados e imensamente respeitados no meio da geotecnia."

Folha - Em três anos, o Brasil foi vítima de dois acidentes com barragens em áreas de mineração. Eram tragédias evitáveis?

Maria Eugenia Gimenez Boscov - As tragédias, sim, eram perfeitamente evitáveis. Já os acidentes talvez não o fossem. Não existe obra totalmente segura, porque não existe probabilidade zero de ruptura. Para isso é que se fazem os chamados cenários de ruptura. Estudam-se variações possíveis de onde, quando, como e por que aquela barragem pode se romper.

Assim, podem-se simular os efeitos de uma ruptura, desde as vidas que seriam perdidas até as áreas que seriam impactadas. Como se explica então a existência, em Brumadinho, de um refeitório e de um edifício administrativo no caminho direto do derramamento dos rejeitos?

Não posso especular se os planos de segurança de Brumadinho estavam em dia com a legislação, mas é evidente que há uma distância considerável entre um plano efetivo e a realidade do que se desenrolou ali. Não parece que a população e os funcionários estavam cientes do perigo que corriam ou preparados para atuar em situação de emergência.

Acidentes são comuns em outros países?

Sim, e a engenharia geotécnica evolui com o duro aprendizado dos acidentes e erros do passado. Grandes acidentes com barragens de rejeitos têm ocorrido em diversos países. Na Itália, em 1985, perderam-se 296 vidas na ruptura da barragem de Stava. Neste século ocorreram desastres com mortes também na China e Hungria —e com imensos danos ambientais. Porém, é necessário aprender com os erros, e não os repetir continuamente.

No Brasil, tivemos acidentes com barragens de mineração em 2001, 2003, 2006, 2007, 2014, 2015 e 2019. Em suma, não estamos aprendendo e continuamos a errar.

É necessário fazer mudanças na legislação?

O problema não é falta de legislação, e sim a sua pulverização —temos desde uma lei federal até resoluções, portarias e decretos, dispersos por vários órgãos. Essa pulverização dificulta o entendimento e cria dúvidas até mesmo para os fiscais e o Judiciário. Também gera redundâncias e, o mais grave, áreas descobertas na legislação. Padronizar e unificar é, portanto, urgente.

Dá para monitorar de modo sistemático uma barragem com equipamentos que medem o deslocamento do maciço de terra? Custa caro?

Sim, com equipamentos modernos de sensoriamento remoto é possível monitorar em tempo real os deslocamentos. Não saberia dizer se isto teria feito diferença em Brumadinho, pois não sei se a ruptura deu sinais anteriores a tempo, mas com certeza pode ajudar em muitas outras barragens. E, como infelizmente podemos testemunhar, o custo não pode ser um fator decisivo.

Uma barragem pode entrar em colapso de uma hora para outra?

Sim, isso pode acontecer. Barragens de rejeitos podem se liquefazer por causas estáticas ou dinâmicas sem aviso prévio. A queda de uma aeronave, um sismo, até uma máquina pesada vibrando pode desencadear o processo em alta velocidade. Daí a necessidade de prever cenários de ruptura, e, para cada cenário, tentar minimizar a probabilidade de ruptura e preparar planos de emergência.

​​Como a senhora avalia a prisão dos engenheiros logo no início da investigação? Passou a impressão de que serviram como bode expiatório?

Sim. Foi uma atitude no mínimo precipitada. Primeiramente, a lei determina que o responsável legal pela segurança da barragem é o empreendedor —no caso, a Vale. Há uma razão para isso: a segurança consiste de um encadeamento intrincado de inúmeros processos que abrangem fatores como projeto, manutenção, monitoramento, treinamento de emergência, entre outros.

Cabe ao empreendedor, por exemplo, notificar os órgãos competentes sobre qualquer alteração de engenharia ou de operação. Ora, o relatório dos engenheiros é de setembro de 2018, e desde então o descomissionamento prosseguia, possivelmente provocando alterações nas condições da barragem e do reservatório. Essas alterações foram devidamente acompanhadas e notificadas?

Acaba de vir a público a íntegra do relatório feito pela Tüv Süd e pelos engenheiros André Yassuda e Makoto Namba, que contém uma grande quantidade de ressalvas e recomendações feitas à Vale. Esses dados não foram considerados ao se expedirem os mandados de prisão dos engenheiros, que, é importante frisar, são profissionais altamente gabaritados e imensamente respeitados no meio da geotecnia.

Pessoalmente, é muito difícil crer que esses dois profissionais fossem capazes de comportamento negligente ou não idôneo. A tristeza e a revolta da população são justas, mas não se pode destruir precipitadamente, antes de ocorrer uma investigação, duas vidas e reputações dignas para acalmar esse sentimento.

 

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